Com atmosfera negativa predominante, debate digital sobre ONGs se concentra em estigmas e teorias conspiracionistas contra organizações

Por: FGV ECMI 

 

Por: FGV ECMI 

 

  • No X, 63% das publicações analisadas sobre o tema apresentaram teor negativo, com denúncias de corrupção e associações indevidas entre o governo, ONGs e países estrangeiros;
  • No debate favorável às ONGs, assuntos relacionados ao entretenimento e ao engajamento à causa animal obtiveram maior destaque, assim como denúncias de crimes ambientais;
  • No âmbito do debate parlamentar sobre a CPI das ONGs, nomes favoráveis à comissão concentraram maior alcance no Facebook, com ampla mobilização de declarações de indígenas contra ONGs.

 

Em 2023, o debate geral sobre Organizações Não Governamentais (ONGs), também conhecidas como Organizações da Sociedade Civil (OSCs), se concentrou em uma agenda negativa e repleta de estigmas a respeito dessas instituições. No X, por exemplo, 63% das postagens analisadas apresentavam críticas ou ataques a ONGs, frente a apenas 9% de posts de cunho positivo. Já nos aplicativos móveis, teorias conspiracionistas e ataques a ONGs ambientalistas e indígenas foram preponderantes. É o que mostra estudo da FGV Comunicação Rio, que analisou o debate digital sobre esta temática no X, no Facebook, no YouTube, no Instagram, no WhatsApp e no Telegram, entre 1º de janeiro e 2 de outubro de 2023.

No debate específico sobre a CPI das ONGs, a tendência de postagens negativas a respeito dessas organizações se fortalece ainda mais. Os links com maior circulação no Facebook apontam para esta percepção, assim como o debate parlamentar travado nesta mesma rede e no Instagram. Nesse sentido, a participação de lideranças e personalidades indígenas nas reuniões da CPI foram amplamente mobilizadas como modo de fornecer legitimadade e autenticidade para as críticas às  ONGs, entre denúncias de tráfico humano em comunidades indígenas e afirmações de que o governo estaria se beneficiando financeiramente da atuação de  ONGs estrangeiras.

 

 

Debate geral sobre ONGs

Evolução do debate geral sobre ONGs no Facebook
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023

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Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Temáticas relacionadas às organizações da sociedade civil mobilizaram cerca de 124 mil posts em páginas e grupos públicos do Facebook entre 1º de janeiro e 2 de outubro de 2023. Ao todo, essas publicações reuniram mais de 12,5 milhões de interações. Os principais picos de postagens ocorreram nos dias 27 de abril, 21 de maio e 30 de junho;

 

  • No dia 27 de abril, um tópico ligado ao entretenimento teve amplo alcance: a iniciativa de arrecadação de fãs da vencedora do reality show Big Brother Brasil 23, Amanda Meirelles, para a ONG ligada à ativista social Domitilla Barros, voltada para jovens em situação de vulnerabilidade social na cidade do Recife. A notícia foi divulgada em meio ao engajamento alcançado no final do programa, no dia 26 daquele mês, o que gerou um pico de 563 posts a respeito do assunto;

 

  • Já o aumento de publicações registrado no dia 21 de maio se deve à divulgação articulada, em páginas vinculadas ao campo político da direita, de acusações envolvendo alegadas associações entre a ONG do apresentador Luciano Huck e o narcotráfico. Os posts em destaque divulgam vídeo de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sobre o tema. Foram registrados 438 posts no dia;

 

  • A circulação de conteúdos em páginas vinculadas à grupos políticos de direita também originam novo pico de postagens, agora no dia 30 de junho. Na ocasião, trechos da sessão do dia 27 da CPI das ONGs são aproveitados em posts que questionam a atuação dessas organizações no território amazônico.

 

Principais links sobre ONGs no Facebook
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023
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Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

 

  • A circulação de links sobre ONGs no Facebook refletiu a diversidade do debate sobre o tema na rede. Foram registradas desde publicações sobre o envolvimento de celebridades com organizações da sociedade civil até episódios de resgate de animais. A politização da discussão também foi um elemento relevante, especialmente em relação a ONGs ambientais com atuação na Amazônia, tópico sobre o qual foram levantados argumentos a respeito de suposta corrupção do governo atual e de aderência ao alegado “globalismo”;

 

  • O destaque atribuído ao envolvimento de celebridades com ONGs apresentou perspectivas e interesses distintos: tanto polêmicas - como o valor de doações e acusações de golpe, relacionados à cantora Anitta e à ativista Luisa Mell, respectivamente - quanto a um debate sobre a responsabilidade social de pessoas públicas, no caso do apresentador Manoel Soares. Resgates de ONGs animais também estiveram em evidência, como o salvamento de um filhote de onça-pintada após um incêndio florestal, assim como a discussão sobre transparência das ONGs no Brasil, em artigo da ChildFund Brasil;

 

  • A politização do debate foi um componente importante e diverso entre os links com maior circulação. Nesse sentido, houve uma notória proeminência de perspectivas de direita, como notícias do veículo de mídia hiperpartidária Jornal da Cidade Online, que sugeriu que o atual governo mantém relações escusas com organizações não governamentais com atuação na Amazônia. Em contrapartida, denúncias contra a empresa madeireira Paper Excellence, que detém hectares no Brasil, ganhou destaque, assim como denúncia de ONG humanitária a respeito de prisões políticas na Venezuela.

 

Análise de sentimento sobre ONGs no X
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023
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Fonte: X | Elaboração: FGV ECMI

 

A metodologia utilizada consiste na verificação detalhada de uma amostra representativa de todas as postagens realizadas de 1º de janeiro de 2023 a 2 de outubro de 2023, analisadas qualitativamente.

A visão panorâmica dos sentimentos expressos a respeito das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no Brasil indicam que há uma maior tendência de exposição de sentimentos negativos e de críticas, sobretudo, relacionadas à desconfiança, à descredibilidade e a postagens que agregam má reputação para as instituições. Entretanto, o peso da sentimentalização negativa direcionada às organizações é influenciado pelo acontecimento da investigação dirigida pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

O sentimento negativo alcança 63% das interações analisadas na rede social X, se destacando à frente do sentimento positivo, que atinge 9%, e do sentimento neutro, que obtém 28% dentre os dados analisados. O sentimento de desapontamento se destaca em meio às interações sobre as  ONGs na rede X, visto que há internautas que manifestam surpresa, desconhecimento e decepção diante das denúncias de fraudes e de explorações de indígenas imputadas às organizações. Além de associações a crimes, foram observadas acusações de ligações com tráfico, responsabilizações por degradações físicas de populações indígenas, como a crise humanitária dos povos Yanomamis, devastações ambientais e biopirataria.

O sentimento negativo (63%) é engajado em razão de acusações de haver corrupção, desvio de verbas e má gestão de recursos repassados por meio de doações ou pelo governo às organizações. Há referências a descasos, queixas de omissões diante de denúncias, alegações de que seriam as  ONGs que estariam governando a Amazônia e que elas defenderiam interesses estrangeiros. Além disso, há exteriorizações de desconfiança e objeções diversificadas, a exemplo do questionamento de haver beneficiamento indevido, com menções ao enriquecimento financeiro de diretores de ONGs, que estariam cuidando de seus interesses pessoais. Também foram identificados julgamentos que afirmam que os envolvidos “não podem ficar impunes”.

Dentre as postagens analisadas, as  ONGs  aparecem associadas ao hábito de esconder ou conter “sujeira”, no sentido de ilegalidades e de inadequações. O sentimento negativo é externalizado por meio de expressões depreciativas e do uso de adjetivações pejorativas, dentre elas: (i) “ONG de fachada”, utilizada tanto no singular quanto no plural, de forma geral e de forma específica; (ii)  “Ongs imperialistas”; (iii)  “ongs de prateleiras”(iv) “ong obscura”; (v) “cavalos de Tróia”; (vi) “estado paralelo”; (vii) inescrupulosas; (viii) picaretas; (ix) manipuladoras, além do neologismo (xx) “ongueiros” utilizado como adjetivo e como substantivo para caracterizar e/ou denominar, com aspecto semântico negativo, aqueles que defendem a existência e/ou a permanência de ONGs. Também há referências de que as ONGs façam “encenação”, “espionagem” e “interferências” em obras governamentais. O uso de ironias está presente em meio às publicações do X.

O sentimento positivo (9%) é mobilizado por menções de  ONGs em meio a iniciativas que envolvem oferecimento de cursos profissionalizantes, oportunidades de acesso a emprego e a lazer, e, sobretudo, a campanhas de arrecadação para causas específicas, como ajuda a refugiados e assistência a animais abandonados. O setor de  ONGs voltadas às causas animais consistiu no nicho que mais engajou sentimentos positivos relacionados a instituições do setor. O uso da hashtag genérica #ONG em postagens relacionadas a denúncias de crimes ambientais e em publicações de oportunidades também constitui um elemento positivo em meio às amostras avaliadas. Circula na rede, em relevância numérica pontual, a defesa de que as ONGs não podem ser generalizadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada, visto que há uma postagem do senador Plínio Valério, presidente da CPI, que afirma que há ONGs boas que realizam trabalhos elogiáveis, post replicado por alguns internautas. Além disso, o encontro do presidente Lula com o vocalista da banda inglesa Coldplay, Chris Martin, e com representantes da ONG Global Citizen, engajou sentimentalização positiva a favor das organizações.

O sentimento neutro (28%) é caracterizado por meio de menções às  ONGs e à CPI das ONGs, sem tomada de posição polarizada (a favor ou contra/positiva ou negativa) e pelo mero ato de noticiar fatos ocorridos ou em curso. Nesse contexto, circulam publicações de canais de imprensa contendo informações que não podem ser classificadas diretamente em nenhum dos pólos, pois não há julgamentos expressos, nem avaliações tendenciosas. Há compartilhamentos de posts de internautas que apenas repassam os links de notícias sem pronunciamento pessoal a respeito da questão. Portanto, o sentimento neutro é identificado por meio de postagens que contêm conteúdo meramente informativo, principalmente, no que se refere aos desdobramentos da CPI das ONGs no Brasil.

 

Principais termos sobre ONGs no X 
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023

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Fonte: X | Elaboração: FGV ECMI

 

  • A análise das frases mais recorrentes no debate sobre ONGs no X mostra como a CPI das ONGs na Câmara dos Deputados foi parte relevante dessa discussão. A referência nominal à “CPI das ONGs” foi registrada 239 mil vezes nos 744.830 posts sobre ONGs na plataforma. Além disso, atores e episódios relacionados também ficam em destaque na nuvem;

 

  • Nesse sentido, as mensagens favoráveis à investigação ficam em destaque e fazem com que nomes como “Plínio Valério” e “Aldo Rebelo” sejam frequentemente mencionados. O senador Varelo (PMDB-AM) é autor do pedido original de criação da CPI, quando deputado em 2019, e o ex-ministro Rabelo (PDT), ao testemunhar na CPI, acusou ONGs atuantes na floresta amazônica de constituírem um “Estado Paralelo”;

 

  • Se a CPI é o principal episódio político presente nesse debate e impulsiona transversalmente menções a outros temas, acontecimentos à parte também ficam em destaque ao longo do ano. Nas 24 mil menções à “ONG evangélica”, fica em evidência a divulgação de denúncias sobre caso de alegado desvio de “872 milhões” destinados à saúde dos povos Yanomami durante o governo de Jair Bolsonaro, caso noticiado pela imprensa como envolvendo ONG evangélica associada à ex-ministra Damares Alves;

 

  • Em novo exemplo da associação entre ONGs e alegações envolvendo recursos públicos, usuários críticos da atuação das organizações na área ambiental repercutem conteúdo desinformativo sobre alegado desvio de “33 milhões” na ONG indigenista Associação Yanomami Urihi, descrita pejorativamente como “próxima ao PT” e “ONG que denunciou desnutrição” de Yanomamis;

 

  • Nessa mesma vertente e sob o protagonismo do mesmo campo político, instituições com atuação ambientalista são frequentemente deslegitimadas como uma “ONG internacional” ou então “ONG que recebe” financiamento de pessoas como “George Soros” ou do “Fundo Amazônia”.

 

Principais vídeos sobre ONGs no YouTube
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023

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Fonte: YouTube | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Os vídeos em destaque sugerem que existe um interesse público diversificado e plural nas atividades das ONGs, abrangendo desde questões de transparência financeira até o papel dessas organizações em contextos sensíveis, como territórios indígenas e a Amazônia. Como observado em outras plataformas, as opiniões sobre as ONGs variam amplamente e estão frequentemente associadas a debates político-partidários;

 

  • Diferentemente do que ocorreu em redes como o Facebook e o Telegram, nas quais houve um notório domínio da extrema-direita, o debate de cunho político tendeu a ser mais equilibrado no YouTube, com setores da esquerda obtendo destaque importante na rede. Ainda assim, insistiu-se no argumento de que ONGs - desta vez, evangélicas - seriam corruptas, em decorrência de denúncias de suposto desvio de verbas do governo anterior para essas instituições religiosas, em detrimento dos indígenas Yanomami.

 

Mensagens mais enviadas sobre ONGs no WhatsApp
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023
Quantidade de publicações: 7.177 em 418 grupos
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Fonte: WhatsApp | Elaboração: FGV ECMI

 

  • As mensagens com maior número de envios no WhatsApp apresentam ataques diretos à reputação e à legitimidade das atividades das ONGs. Como nas demais plataformas, o teor politizado do debate é, sobretudo, direcionado a instituições atuantes na pauta ambiental;

 

  • Isso ocorre por meio de afirmações taxativas ou sugestivas em relação a comportamentos e ações que atestariam contra a atuação desses atores. Nas manchetes e links alegadamente noticiosos, vínculos políticos com o atual governo brasileiro,  alegadas evidências de obtenção de benefícios financeiros e supostos registros da existência de críticas entre populações-alvo ficam em destaque, constituindo, assim, um repertório de “contradições” explícitas às bandeiras do setor;

 

  • Três das 10 mensagens mais compartilhadas destoam da temática ambiental e são referentes à área de proteção aos Direitos Humanos. Nesse sentido, o link de mensagem mais frequente nos grupos monitorados enfatiza reações negativas à suposta iniciativa de uma organização internacional em defesa de homens trans e pessoas não binárias. Outras associam criticam posicionamento de ONG que “defende bandido” e divulgam denúncia de suposta acusação de estupro contra presidente de ONG de Direitos Humanos.

 

Mensagens mais compartilhadas sobre ONGs no Telegram
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023
Quantidade de publicações: 1.752 em 669 grupos e canais

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Fonte: Telegram | Elaboração: FGV ECMI

 

  • As mensagens em destaque no Telegram enfatizam um discurso proeminente de criminalização das ONGs, com notória polarização do debate e protagonismo de perspectivas associadas à extrema-direita. Para reforçar a ideia de que essas organizações seriam criminosas, recorre-se a alegadas associações com o tráfico de drogas, armas, pessoas e recursos naturais. Nesse sentido, publicações atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e familiares, como o vereador Flávio Bolsonaro, são mobilizadas como modo de demonstrar suposta legitimidade das informações veiculadas na plataforma;

 

  • Nas mensagens, prevalece a ideia de que as ONGs, em geral, estariam vinculadas à esquerda e, consequentemente, ao governo atual, como modo de facilitação de práticas de corrupção. Com teor conspiracionista, fala-se em supostas articulações de um “socialismo globalista”, que, na figura do empresário George Soros, teria destinado R$ 100 milhões para ONGs de extrema-esquerda para promover agendas de desarmamento, desencarceramento em massa, “ideologia de gênero”, legalização do aborto e censura e perseguição a pessoas alinhadas ao conservadorismo.

 

Exemplos de mensagens sobre ONGs nos Apps Móveis
Período: de 1º de janeiro a 2 de outubro de 2023

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Fonte: Telegram e WhatsApp | Elaboração: FGV ECMI

 

 

Debate sobre a CPI das ONGs

Evolução do debate sobre a CPI das ONGs no X
Período: de 1º de maio a 2 de outubro
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Fonte: X | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Foram registrados cerca de 327,6 mil posts sobre a CPI das ONGs entre 1º de maio e 2 de outubro, com uma predominância de mensagens favoráveis à Comissão e que expressaram um sentimento de desconfiança a respeito das ONGs. Os picos mais expressivos do debate se associam aos dias de reuniões da CPI no Senado. A terceira reunião da Comissão, na qual foram ouvidas lideranças indígenas, representou o maior pico do debate, no dia 27 de junho;

 

  • Nos posts, de modo geral, recorre-se com frequência ao argumento de que as ONGs ambientalistas estariam recebendo “verbas globalistas” para promover a facilitação de acesso de recursos naturais ilegais para instituições estrangeiras. Essa ideia é ilustrada em publicação de alto alcance do senador Plínio Valério, presidente da CPI referida, que afirmou haver uma “guerra nacional praticamente perdida na Amazônia”, em referência ao suposto conluio entre ONGs e o governo contra alegados interesses nacionais;

 

  • Sob este raciocínio, a ideia geral é de que doações a ONGs representariam um atraso para o Brasil e um “boicote” à soberania nacional. É interessante observar a mobilização recorrente de declarações de lideranças indígenas na CPI como modo de legitimar a ideia de que as ONGs seriam, de fato, corruptas e nocivas para a sociedade como  um todo;

 

  • O campo progressista teve participação mais limitada no debate. Neste grupo, circulou com maior fôlego o argumento de que existiria uma parcialidade do presidente da CPI na escolha dos depoentes, que teriam uma perspectiva contrária às ONGs em função de interesses pessoais.

 

Principais links do debate sobre a CPI das ONGs no Facebook
Período: de 1º de maio a 2 de outubro de 2023
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Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Os links sobre a CPI das ONGs com maior circulação no Facebook sinalizam uma predominância importante de veículos de mídia hiperpartidária de direita, que tendem a se manifestar contra as ONGs no âmbito da Comissão. Os portais Jornal da Cidade Online, Jovem Pan News, Gazeta do Povo e Revista Oeste detêm a totalidade dos dez links com mais interações na rede;

 

  • O eixo argumentativo central é a suposta relação escusa do governo atual com ONGs nacionais e estrangeiras na Amazônia, que atuariam como um “estado paralelo” na região e que teriam recebido recursos não aplicados aos devidos fins. Tenta-se atribuir a atores políticos do governo a acusação de envolvimento ilegal com ONGs ambientais, como a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

 

Debate parlamentar sobre a CPI das ONGs no Facebook 
Período: de 1º de maio a 2 de outubro de 2023
Total de publicações: 231
GráficoFonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Entre 1º de maio e 2 de outubro, foram registradas 231 publicações envolvendo a CPI das ONGs por parte dos parlamentares em atividade. Nomes favoráveis à Comissão tiveram protagonismo notório no debate, especialmente em termos de engajamento. Parlamentares filiados ao Partido Liberal tiveram o maior alcance na discussão, sobretudo Carla Zambelli, Filipe Barros e Bia Kicis. Em menor grau, representantes de partidos associados ao Centro também tiveram expressividade no debate, seguidos de parlamentares ligados ao governo, que registraram um envolvimento baixo na pauta;

 

  • O enfraquecimento da soberania nacional frente a supostas ordens estrangeiras e o aumento de ações consideradas prejudiciais aos povos indígenas estão entre os argumentos mais mobilizados pelos parlamentares da oposição contra a atuação de ONGs na região amazônica. Além disso, instituições governamentais como o Ibama e ONGs como o Instituto Socioambiental foram acusadas de promover informações falsas e de desviar verbas voltadas para causas ambientais, ao exemplo do Fundo Amazônia.

 

Exemplos de posts de parlamentares sobre a CPI das ONGs no Facebook e no Instagram
Período: de 1º de maio a 2 de outubro de 2023
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Fonte: Facebook e Instagram | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Como apresentado anteriormente, parlamentares vinculados à extrema-direita tiveram amplo protagonismo no debate sobre a CPI das ONGs. A ideia de que as ONGs pertenceriam a um esquema político-financeiro vinculado ao globalismo, com referências ao empresário George Soros, é recorrente. Além disso, citações a lideranças indígenas que prestaram depoimentos contra as ONGs foram amplamente mobilizadas para fornecer legitimidade à argumentação sustentada pela presidência da Comissão.

 

Mensagens mais compartilhadas sobre a CPI das ONGs no Telegram
Período: de 1º de maio a 2 de outubro de 2023

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Fonte: Telegram | Elaboração: FGV ECMI

 

  • São recorrentes na plataforma mensagens que apresentam denúncias de tráfico sexual e de órgãos de crianças indígenas por parte de ONGs ambientalistas. Nesse sentido, foi veiculado com destaque um vídeo no qual a indígena Luciene Kujãegese, durante sessão da CPI das ONGs, mencionou supostos casos desse crime na cidade de Querência, em Mato Grosso, sem apresentar evidências concretas a respeito do que foi relatado;

 

  • Vídeos de atores políticos em depoimento para a CPI, como o ex-ministro da Defesa do governo Bolsonaro, Aldo Rebelo, e a deputada federal Silvia Waiãpi, em depoimento para a CPI, também circularam de maneira expressiva. Entre as denúncias de Waiãpi de maior destaque, por exemplo, esteve o suposto envolvimento da rede varejista Magalu na crise humanitária dos Yanomamis;

 

  • Nas mensagens, de forma geral, a presença de ONGs estrangeiras foi classificada como um perigo para o Brasil. Foi citada, por exemplo, uma suposta parceria ilegal entre o país, na figura do presidente Lula, e autoridades da Holanda e da França. Sustenta-se a ideia geral de que as ONGs se valeriam de discursos “hipócritas” para esconder objetivos exploratórios e predatórios, o que abrangeria o narcotráfico, o tráfico humano e a “degradação moral”.